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Ajuste no estoque de insumos ainda demora

O ciclo de ajuste de estoques de insumos e matérias-primas nas cadeias produtivas por conta da turbulência global ainda não acabou. Os fabricantes brasileiros de bens intermediários como aço, cobre e produtos químicos esperam uma retomada mais forte da produção apenas em abril ou maio, e mesmo assim em um nível sensivelmente inferior ao do período pré-crise. Para tentar compensar essa perda e a dificuldade para exportar, siderúrgicas e petroquímicas locais planejam conquistar uma fatia do consumo que hoje é atendida por importações.

O tombo em bens intermediários está contribuindo de maneira decisiva para a retração da atividade, diz o economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero. O setor é responsável por mais da metade da produção industrial, lembra ele, ressaltando a magnitude da retração nos últimos meses. Depois de amargar queda de 20,8% entre julho e dezembro, a produção de intermediários teve reação pífia em janeiro: subiu 0,8% em relação ao fim de 2008 com ajuste sazonal, bem menos que os 2,3% da indústria geral.

A dificuldade em desovar estoques e as perspectivas fracas para a demanda provocaram queda de 28,5% no volume importado de bens intermediários em janeiro e mais 48% em fevereiro, na comparação com o mesmo mês de 2008. Como representam mais 50% das importações, o mergulho nas compras externas desses produtos ajudou a balança comercial a obter saldo de US$ 1,2 bilhão em fevereiro, depois do déficit de US$ 518 milhões em janeiro - o primeiro desde março de 2001.

Quando a crise chegou com mais força ao Brasil, em setembro do ano passado, as empresas estavam no meio de um processo de estocar matérias-primas e insumos. Havia otimismo com a economia local, que crescia a um ritmo anualizado superior a 6%, e temor de novas altas de preços das commodities. No momento em que a crise se agravou, as empresas praticamente interromperam a aquisição de matérias-primas. O resultado foi a mais intensa queda na produção de bens intermediários desde o início da série do IBGE, em 1991, como observa Montero.

Marco Polo de Mello Lopes, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), conta que a produção de aço brasileira caiu entre 50% e 60% no último bimestre de 2008 como reflexo da paralisação das vendas de máquinas e carros e de estoques nos distribuidores que chegavam a superar seis meses de vendas em dezembro (em fevereiro, ainda superavam três meses, quando o normal são 2,6). As siderúrgicas tentaram jogar o excedente no mercado externo, mas não conseguiram, por conta do excesso de oferta e preços baixos. Em vez de entrar na liquidação internacional, o setor abafou os fornos em dezembro e antecipou as paradas técnicas, diz ele.

Os números da Sondagem da Indústria da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que os estoque do setor de metalurgia - que incluem as siderúrgicas - seguem elevados. Na pesquisa de fevereiro, 29% dos entrevistados reclamaram de inventários excessivos, menos que os 30,5% de dezembro, mas acima dos 28,7% de janeiro.

Segundo o IBS, a produção de aço subiu apenas 1% em janeiro em relação a dezembro, mesmo com a recuperação da venda de carros após a isenção de impostos promovida pelo governo. Esse patamar se manteve em fevereiro, avalia Lopes, que prefere não arriscar quando será a retomada. A roda tem que voltar a girar de novo, mas não sabemos em que nível o mercado vai estabilizar. Ele ressalta que as esperanças do setor estão voltadas para o mercado interno e pede que o governo evite a entrada de importados. Segundo ele, concessões de preços estão sendo feitas para os consumidores locais.

O mercado externo está muito ruim, e a demanda interna segue fraca, resume o coordenador técnico da sondagem da FGV, Jorge Braga, ao explicar a dificuldade das siderúrgicas em reduzir estoques. Para Montero, isso ajuda a entender o tombo abrupto da produção de intermediários, um setor da indústria tradicionalmente menos volátil: não há como escoar uma parte mais significativa da produção para o exterior, dada a recessão global. Em janeiro, o volume exportado de intermediários caiu 24,4% sobre janeiro de 2008.

Braga, da FGV, observa que há outros segmentos de intermediários com inventários ainda elevados, como o de celulose e papel, em que 42,7% dos entrevistados em fevereiro informaram que os estoques estavam altos demais. A empresa que ajusta estoques produz menos do que vende, e compra menos do que produz, porque usa o estoque de insumos, diz Montero, destacando que isso tem um efeito multiplicador sobre a cadeia produtiva.

No setor de fios e cabos elétricos e semimanufaturados de cobre, o nível de estoques também estava muito alto antes da crise. Os distribuidores tinham feito compras maciças para aproveitar a queda de preços do cobre. Segundo Sergio Aredes, presidente do Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais Não-Ferrosos (Sindicel), a produção do setor em março está 30% abaixo do patamar pré-crise. A demanda foi muito prejudicada pela crise na construção civil.

Aredes estima que os estoques excessivos só vão desaparecer em abril ou maio, proporcionando algum fôlego para a produção. Só que seguramente a reposição desse estoque será em um patamar menor. Ele ressalta que ainda é difícil fazer estimativas, mas que a produção do setor deve ser 10% a 15% menor em 2009 em relação a 2008. Os fabricantes de fios e cabos elétricos esperam que as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a construção de casas populares prometida pelo governo estimulem a demanda.

Segundo Nelson Pereira Reis, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o setor foi mais um atingido pela crise com estoques altos. Em meados do ano passado, as petroquímicas aceleraram a produção e formaram estoques para realizar suas paradas técnicas . Quando as empresas voltaram em outubro, os estoques ainda estavam lá, diz o executivo. As empresas operaram com apenas 50% da carga em novembro e dezembro e algumas unidades novas só começaram a funcionar em janeiro. Antes da crise, a utilização da capacidade instalada estava em 80%.

A produção do setor químico acusou o baque e caiu 20% no quarto trimestre em relação ao terceiro. A Abiquim ainda não totalizou os dados do setor no primeiro bimestre, mas a produção de resinas termoplásticas, por exemplo, subiu 3% em relação a novembro e dezembro, mas caiu 20% ante janeiro e fevereiro de 2008. Reis reclama da falta de crédito e disse que as petroquímicas estão financiando seus clientes para não perder vendas. Com a derrubada do mercado interno, o setor optou por sacrificar preços, mas aumentar as exportações, que cresceram 80% no primeiro bimestre. Graças a esses movimentos, os estoques extras devem acabar este mês.

O vice-presidente da Abiquim informou que as petroquímicas pretendem manter os níveis de produção do período anterior à crise, embora avaliem que o mercado interno sofrerá uma queda de 10% a 15% este ano em relação a 2008. O setor quer sustentar a utilização da capacidade em 80%, para evitar problemas técnicos e prejuízos. Para desovar a produção excedente, vão exportar e capturar o espaço do produto importado no mercado interno. A estratégia é substituir importações, disse Reis.

O secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, acredita que as importações de bens intermediários tendem a cair nos próximos meses, porque a produção local será beneficiada pelo câmbio valorizado. O câmbio será um fator muito positivo, disse Barral. Se ocorrer, será um alívio para a indústria local. O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, porém, mostra ceticismo quanto à possibilidade de a substituição ocorrer em larga escala. Para ele, os fornecedores externos também vão oferecer descontos de preços para tentar manter a sua fatia no mercado brasileiro. Vale projeta um ano difícil para os intermediários, apostando que a produção desses bens cairá 3% em 2009, uma queda superior à de 1% esperada para a indústria geral. Segundo ele, a demanda de insumos por parte de outros segmentos da indústria, como o de bens de capital, será bem mais modesta que no ano passado.
 
Raquel Landim e Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico - 16/03/09